Matéria Especial: Queremos o GP do Brasil em janeiro outra vez

Tinha de tudo: pilotos descansando nas praias, James Hunt na delegacia e até beatle vindo ao Brasil. Veja por que a gente quer o GP Brasil nas férias outra vez.

Qual a possibilidade de encontrar um campeão mundial de Fórmula 1 na fila da balsa do Guarujá? Hoje, nenhuma.

Mas se você estivesse lá em uma noite de janeiro de 1977 poderia ter presenciado a discussão entre James Hunt e o cabo Isidoro, da Polícia Militar. Hunt estava voltando para São Paulo depois de alguns dias de folga no Guarujá, onde deu tudo errado.

O verão brasileiro o traiu com chuva durante quase todo o período e ele ainda sofreu uma intoxicação alimentar. Pra acabar, um PM o parou na fila da balsa, exigindo documentos do veículo e carteira de habilitação.

Hunt dirigia um Chevette emprestado pela organização do GP do Brasil. Era um carro todo estilizado, incluindo o nome dele em letras garrafais nas laterais. Mas o policial, além de não ter a menor ideia de quem era aquele cara, fez tudo como mandava a lei. Como Hunt não tinha carteira de habilitação (roubada na Itália um mês antes) e o diálogo português-inglês não avançou para lugar nenhum, foi levado para a delegacia.

Lá, tudo se resolveu. O delegado o reconheceu e o dispensou, logo depois de pedir que Hunt desse alguns autógrafos, inclusive para o cabo Isidoro. Surreal.

Mas acredite: cenas como esta eram razoavelmente corriqueiras nos oito anos em que o Grande Prêmio do Brasil foi realizado nos meses de janeiro e fevereiro (de 1973 a 1980). Naquela época, a programação da Fórmula 1 começava bem mais cedo, logo no primeiro mês do ano. E para fugir do rigoroso inverno europeu a categoria escolhia sempre as Américas e a África. O que, muito cá entre nós, deixava todo mundo feliz.

O verão brasileiro era extremamente convidativo para os pilotos em uma época em que as agendas eram menos apertadas e eles conseguiam chegar de duas a três semanas antes, para curtir uns dias de férias na praia (como fez Hunt). Emerson Fittipaldi tinha uma casa no Guarujá e era o grande anfitrião de gente como Jackie Stewart, Niki Lauda e Clay Regazzoni.

Mas a turma se espalhava também por Angra dos Reis, Búzios, e era mais fácil encontrar um deles de pé na areia do que no autódromo.

As corridas em Interlagos (e os pit stops na praia) atraíram inclusive o guitarrista dos Beatles George Harrison. Apaixonado por velocidade, George tornou-se o primeiro integrante da banda a pisar no Brasil, em 1979 (já que Paul McCartney só faria seus primeiros shows por aqui em 1990).

De férias no País, foi ao Guarujá com Emerson e, depois, se enfurnou no autódromo. O Grande Prêmio do Brasil passou por uma enorme transformação em 1981.

Foi quando trocou São Paulo definitivamente pelo Rio de Janeiro, mais precisamente pelo extinto autódromo de Jacarepaguá. Por causa do Carnaval, do calor impraticável e das mudanças no próprio calendário da Fórmula 1 (começando um pouco mais tarde), a corrida passou para os meses de março e abril.

Mas isso não impediu que equipes e pilotos pingassem por aqui antes disso.

Nas semanas que antecediam o início do campeonato, as fornecedoras de pneus precisavam encontrar um país de clima mais adequado para seus testes. O Brasil era a escolha óbvia porque os carros já viriam para cá de qualquer forma, por causa da corrida. Então, era lá mesmo em Jacarepaguá que aconteciam os famosos ‘testes de pneus’.

As praias brasileiras tornavam tudo mais tranquilo, inclusive a missão de viajar com antecedência para essas sessões de treino.

O GP do Brasil mudaria mais uma vez de local, voltando a São Paulo em 1990, e matando um pouco desse clima de pré-temporada vivido nas duas décadas anteriores. Menos pela cidade, claro, e mais pelo nível de profissionalização da Fórmula 1. Os pilotos agora são astros de um esporte de audiência global e cada segundo do tempo deles em qualquer país é disputado a tapas pelos patrocinadores.

Paralelamente, os testes passaram a ser realizados na Espanha, onde o inverno pega um pouco mais leve. Essa soma de fatores foi basicamente o que separou diversão do trabalho no caso das corridas brasileiras.

Desde 2004, o GP do Brasil é disputado no final do campeonato, entre outubro e novembro, tendo inclusive decidido seis títulos mundiais. Claro que essa nova data veio acompanhada de boas festas de encerramento, onde os pilotos puderam se soltar e curtir um pouco. Mas nada, nada mesmo, como o que se viu por aqui nos anos 1970 e 1980.